Em uma cena que toca profundamente o coração, o fotógrafo Federico Veronesi se deparou com uma fêmea de elefante carregando um filhote natimorto enquanto acompanhava uma manada no deserto da Namíbia, em setembro de 2025. O momento, capturado em suas lentes, revela não apenas a fragilidade da vida, mas também a complexidade emocional dos elefantes.
Veronesi descreve como a elefanta, com suas pernas pequenas entrelaçadas na tromba, parecia imersa em um luto que ressoava com as emoções humanas. “Foi um momento íntimo, quase espiritual”, relembra o fotógrafo. O filhote, ainda mole e intacto, havia nascido provavelmente horas antes. Contudo, a história se aprofunda com um detalhe surpreendente: a mãe não era a verdadeira mãe do filhote, conforme revela Christin Winter, diretora da ONG Elephant Human Relations Aid (EHRA).
A fêmea, que já havia perdido seu próprio filhote há dois anos, foi vista carregando filhotes natimortos de outras mães em quatro ocasiões. Este comportamento, inédito na região, sugere uma tentativa de lidar com sua própria perda, uma busca por reconexão com seu passado. “É como se ela tentasse se reaproximar de seu filhote perdido”, pondera Veronesi, ressaltando a profundidade emocional que permeia a vida desses seres majestosos.
A observação de Winter sugere que o ato de carregar o filhote poderia ser uma forma de “processamento emocional”. Ela acredita que a fêmea pode estar traumatizada pela perda e, por isso, adota esse comportamento sempre que encontra um filhote morto. Além disso, a proteção do corpo contra predadores também é uma possibilidade considerada.
As imagens capturadas por Veronesi oferecem um vislumbre da vida dos elefantes do deserto da Namíbia, que se adaptaram a um ambiente árido e migratório. Contudo, a população desses elefantes vem sofrendo um declínio acentuado, especialmente devido aos longos períodos de seca e ao aumento dos conflitos com seres humanos. A competição por recursos hídricos tem gerado tensões, levando a um aumento da intolerância em relação à presença desses animais.
Winter alerta para a alta mortalidade de filhotes, que tem se tornado uma preocupação alarmante. Entre 2014 e 2022, apenas dois dos 16 filhotes nascidos sobreviveram. As teorias sobre essa mortalidade incluem a possibilidade de partos prematuros, consequência do estresse crônico gerado pelos conflitos com humanos. A EHRA está atualmente investigando o impacto ambiental e psicológico sobre esses elefantes, com um projeto que se estenderá até 2028.
Joyce Poole, especialista em elefantes, também destaca a capacidade dos elefantes de vivenciarem o luto. Ela menciona casos semelhantes observados no Quênia, onde mães elefantes demonstraram reações emocionais intensas diante da morte de seus filhotes. As interações emocionais entre os elefantes desafiam a percepção comum de que esses animais são apenas instintivos, revelando uma dimensão emocional rica e complexa.
Compreender a dor e a luta dos elefantes é essencial, especialmente em tempos em que sua sobrevivência está ameaçada. Veronesi espera que suas fotografias sirvam como um lembrete do valor intrínseco de cada elefante, não apenas como parte de uma espécie, mas como indivíduos com sentimentos profundos. “Cada elefante merece compreensão e conservação”, conclui o fotógrafo, ressaltando a importância de proteger não só a espécie, mas também o bem-estar de cada criatura que habita este planeta.


