A foz do Rio Doce, em Regência, Espírito Santo, ainda carrega as cicatrizes do maior desastre ambiental do Brasil, que completou 11 anos em 5 de outubro. O rompimento da barragem em Mariana não só devastou o ecossistema, mas também alterou para sempre a vida das comunidades que dependem da pesca e da água do rio. Para os pescadores e comunidades indígenas, como a aldeia Piraquê-Açu, o impacto continua a ser sentido de forma dolorosa.
Leônidas Carlos, presidente da Associação de Pescadores de Regência, dedicou 55 anos de sua vida ao mar, sustentando sua família através da pesca. Hoje, ele reflete com tristeza sobre a perda de sua atividade, que não é apenas uma fonte de renda, mas uma parte fundamental de sua identidade. “Minha vida era no mar pescando”, lamenta, ao expressar sua insegurança sobre a qualidade do pescado que ainda pode ser comercializado.
Na aldeia Piraquê-Açu, o cacique Kara’í Perú compartilha uma realidade igualmente desoladora. Após mais de uma década sem pescar no rio, a comunidade modificou seus hábitos alimentares, optando por adquirir pescado de outras regiões. Para eles, a relação com o Piraquê-Açu vai além da subsistência; é uma conexão cultural e espiritual que foi severamente afetada pela contaminação das águas.
O governo federal, em uma tentativa de revitalizar a pesca profissional, recentemente autorizou a atividade em um trecho próximo à foz do Rio Doce. Contudo, essa reabertura não restaurou a confiança da comunidade. Estudos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) ainda apontam anomalias nos peixes, como deformações e tumores, levantando preocupações sobre a saúde pública. A insegurança persiste, mesmo com a ciência tentando avaliar a qualidade da água e do pescado.
A espiritualidade também se entrelaça com essa luta, como evidenciado pela oração de Kara’í Perú e sua mãe, que pedem proteção aos rios e aos peixes. “Quando a comunidade percebe que o rio está morrendo, nós choramos também. A nossa vida está ali”, afirma o cacique, destacando que a saúde do rio é vital para as futuras gerações.
Enquanto isso, a Secretaria de Estado de Recuperação do Rio Doce (SERD) anunciou investimentos significativos para a recuperação da bacia, com um plano de R$ 2,44 bilhões que inclui assistência técnica a pescadores e reflorestamento. No entanto, a falta de dados históricos sobre a produção pesqueira antes do desastre limita a análise comparativa da situação atual com o passado.
As empresas responsáveis pela tragédia, como a Samarco, afirmam estar comprometidas com a reparação e o monitoramento ambiental, mas para muitos pescadores e indígenas, a desconfiança ainda é palpável. Eles continuam a clamar por respostas sobre a segurança do pescado e a qualidade da água, numa luta que se estende por mais de uma década. O Rio Doce, um “paciente crônico”, ainda enfrenta um longo caminho até a recuperação plena.


